Artur Vieira de Andrade
O arquiteto do Cinema Batalha
Presença Viva · Edição de trabalho · outubro de 2026
Texto de base fornecido pela família. Os episódios pessoais mantêm a sua natureza de memória familiar; as divergências documentais estão assinaladas nas notas da edição em PDF.
01 · A casa que a cidade conhece
Na Praça da Batalha, no coração do Porto, há um edifício de linhas tensas e movimento contido que várias gerações conheceram como lugar de cinema. A sala principal chegou a acolher 950 espectadores. O próprio espaço fazia parte do espetáculo. O Cinema Batalha é uma das obras pelas quais a cidade recorda Artur Vieira de Andrade.
O autor foi Artur Vieira de Andrade. A História conhece o arquiteto. A família conheceu o homem. Esta é uma tentativa de os juntar.
02 · Cedofeita a madeira e as mãos
Segundo a memória familiar, Artur nasceu a 14 de maio de 1913, na Rua Antero de Quental, em Cedofeita, terceiro filho de Manuel Vieira de Andrade, de Castelo de Paiva, e de Clara Rodrigues de Andrade, de ascendência galega. O casal vivia com algumas dificuldades, mas a mãe não era mulher de se conformar. A filha, Laura, ouviu inúmeras vezes da avó a história de uma mobília simples para a sala de jantar que Clara foi enfeitando, adereço a adereço. Vendeu-a por anúncio no Jornal de Notícias. Correu bem. Daquele pequeno gesto de ambição nasceu um negócio: uma loja de móveis com colchoaria, aberta no rés-do-chão da própria casa.
Foi ali, entre vernizes, tachas e ferragens, que Artur aprendeu a trabalhar a madeira. Segundo o relato familiar, aos doze anos aceitou, por vontade própria, a primeira encomenda de um cliente. Polia e envernizava; mais tarde, para colaborar no negócio da família, aprendeu a pirogravar tampos de cadeira em sola. As mãos conheceram o ofício muito antes de ele se tornar arquiteto.
03 · O despertar político
O interesse pela política começou cedo. A família conta que, aos treze anos, ouviu o seu barbeiro discursar na Avenida dos Aliados sobre os ideais do comunismo. Guarda também um episódio dos anos de escola: depois de um colega ser repreendido por andar mal vestido, Artur alugou um fraque e apresentou-se assim na aula. Pelo caminho, os miúdos gritavam: «O Artur vai casar!» Era a sua forma de confrontar o professor com a injustiça da repreensão. Ainda jovem, começou a frequentar as tertúlias dos cafés da Baixa, sobretudo A Brasileira, onde escutava a crítica ao regime e a defesa da igualdade social e da liberdade de expressão. Depressa deixou de ser apenas quem ouvia. Passou a imprimir e a distribuir panfletos e cartazes.
Em casa, a política tornou-se motivo de tensão. A mãe não suportava as visitas da polícia política. Em 1931, Artur saiu de casa e foi procurar a sua independência, empregando-se numa fábrica como apontador. A primeira detenção é situada no texto familiar em 1933, aos vinte anos, com passagem pelo Limoeiro e pela Cadeia da Relação. Seria a primeira de muitas: o manuscrito menciona oito ou nove. Conserva-se essa divergência, sem fixar um número definitivo.
A memória familiar situa em 1934 um episódio de fuga. Detido no Campo 24 de Agosto, ao passar pelo antigo Cinema Trindade, à saída de uma sessão, Artur pôs-se a gritar, denunciando em voz alta os agentes da polícia política. Fez-se desordem na rua. Com a ajuda dos transeuntes, escapou até casa de um amigo na Rua do Almada, que lhe emprestou uma farda militar do pai. Foi fardado de soldado que regressou a casa em segurança. Por esses anos, adotou o pseudónimo Olímpio Cardoso.
Foi também nessa fase, hospedado na Pensão Astória, na Rua de Gonçalo Cristóvão, que conheceu Laura Guilherme Mourão Nogueira, natural de Vila Real e hóspede da mesma pensão. Casaram pelo civil em Vila Real, em 1936. Ele tinha vinte e três anos; ela, vinte e um. Na recordação da família, tornaram-se inseparáveis.
04 · O desenho encontra o seu caminho
A filha recorda que um vizinho reconheceu no jovem o dom do desenho e associa a sua passagem pela Câmara Municipal do Porto, como desenhador, ao Pelourinho da Sé. Guarda também a memória do trabalho no gabinete de Arménio Losa, que lhe reconheceu a aptidão. Para conciliar trabalho e estudo, Artur fazia desenhos em casa e entregava-os de manhã, podendo assim frequentar as aulas. Estes episódios ajudam a perceber a determinação com que procurou a arquitetura, embora a sua sequência exata deva ser lida como memória familiar.
Estudou com esforço. Segundo a filha, só se deitava quando o primeiro elétrico das seis da manhã subia a rua, para se levantar pouco depois, às oito e meia. Na capa escolar desenhava a foice e o martelo. Viria a afastar-se dos ideais comunistas ao reconhecer a repressão na União Soviética, incompatível com a sociedade solidária e humanista que defendia. A biografia da Universidade do Porto situa a frequência do Curso Especial de Arquitetura entre 1934 e 1937 e do Curso Superior entre 1941 e 1946.
05 · O Rialto a Portugália e a Batalha
A obra própria começou cedo. O manuscrito situa a inauguração do Café Rialto, na Praça D. João I, a 6 de dezembro de 1944, ainda antes de Artur terminar o curso de arquitetura. No café reuniu o trabalho dos pintores Dórdio Gomes, Guilherme Camarinha e Abel Salazar e um baixo-relevo do escultor João Fragoso. Ficou desde logo definida uma marca: arquitetura e artes plásticas trabalhando juntas. Em março de 1945, segundo a mesma recolha, veio a Livraria Portugália, com pinturas de Augusto Gomes e Camarinha, na antiga Rua de Santo António.
E depois veio a Batalha. Inaugurado em 1947, no lugar do antigo cinema High-Life, o edifício tornou-se uma obra emblemática de Artur Andrade. A arquitetura acolheu os frescos de Júlio Pomar nos foyers, os relevos de Américo Braga e Augusto Gomes, a pintura de António Sampaio e a escultura Flora, de Arlindo Rocha. Um cinema podia ser também um lugar de encontro entre as artes.
A censura atingiu esse encontro. A prisão de Júlio Pomar por motivos políticos interrompeu a execução dos frescos, concluídos depois da abertura do cinema e posteriormente tapados. No relevo da fachada, de Américo Braga, foram apagados os símbolos da foice e do martelo. A Batalha ficou marcada pela repressão do regime, mas também pelo trabalho de quem procurava criar um espaço de beleza e de encontro.
O edifício foi classificado Monumento de Interesse Público em 2012. Após a reabilitação, abriu ao público como Batalha Centro de Cinema em dezembro de 2022. Os frescos de Pomar, que sobreviveram sob camadas de tinta, foram recuperados. A história que as paredes guardavam voltou a tornar-se visível.
06 · A obra recusada
O mesmo regime que censurou as paredes da Batalha rejeitou-lhe uma obra inteira. Em 1947, a Associação Industrial Portuense convidou-o a riscar um palácio de exposições para os Jardins do Palácio de Cristal. A Câmara indeferiu o anteprojeto — com a justificação, escrita, de que o autor era opositor ao regime. Não se discutiu o mérito. Discriminaram os ideais.
A resposta dos pares diz muito sobre o respeito que Artur Andrade inspirava. Trinta e quatro arquitetos assinaram uma carta, publicada na revista Arquitectura, repudiando uma decisão que ignorava a obra para punir o homem. Não foi um gesto isolado de talento a defender-se; foi uma profissão a reconhecer um dos seus.
Em 1947, Artur participou também na fundação da ODAM, a Organização dos Arquitetos Modernos, com Agostinho Ricca, Alfredo Viana de Lima e outros arquitetos.
A ODAM contribuiu para afirmar uma arquitetura moderna, funcional e socialmente comprometida, em oposição ao conservadorismo oficial do Estado Novo. Artur Andrade pertenceu a essa geração que procurou mudar a forma de construir e de pensar a cidade.
O manuscrito associa-lhe a Garagem da Rua Latino Coelho, em 1958, e outras obras: o prédio da FIAT, a Estalagem de São Tiago em Entre-os-Rios, a Fábrica de Fiação Figueiredo & Maia em Santo Tirso, moradias e edifícios de habitação. O Cinema Batalha permanece a sua obra mais reconhecida, mas não esgota o seu percurso.
Mas o ano de 1958 traria, sobretudo, outra coisa.
07 · A candidatura de Humberto Delgado
Em 1958, segundo o relato recolhido pela família, Artur soube pelo amigo Artur Santos Silva que havia um general descontente com o regime. Partiu para Lisboa e apresentou-se na Aeronáutica Civil com uma missão: convencer Humberto Delgado a candidatar-se à Presidência da República. Delgado aceitou e Artur tornou-se secretário-geral da candidatura. A campanha mobilizou a oposição à ditadura. O resultado oficial deu a vitória a Américo Tomás; Delgado denunciou a fraude. O general viria a ser assassinado pela PIDE em 1965, em Espanha, com a sua secretária, Arajaryr Campos.
Artur Andrade sobreviveu a esse tempo como sobrevivera a todos os outros: sem nunca se calar.
08 · Abril e a cidade nas suas mãos
Quando a ditadura caiu, a 25 de abril de 1974, Artur foi chamado a intervir na governação da cidade. A pedido de Francisco Sá Carneiro e Joaquim Magalhães Mota, filiou-se no PPD e integrou as comissões de admissão do partido. A 4 de outubro de 1974 tomou posse como presidente da primeira Comissão Administrativa da Câmara Municipal do Porto, momento conservado nos arquivos da RTP. Mais tarde, exerceu funções de vereador do Urbanismo. O arquiteto cujo projeto a Câmara recusara em 1947 participava agora nas decisões sobre a mesma cidade.
A memória familiar associa a sua ação municipal à Rua Bento Jesus Caraças, à Avenida de Damião de Góis e à recuperação de estudos para o Parque da Cidade do Porto. Recorda-o a mobilizar desenhadores e arquitetos para retomar um projeto arquivado. Esta lembrança refere-se ao impulso dado ao processo, sem lhe atribuir a autoria exclusiva do parque ou a totalidade da sua realização.
O reconhecimento formal veio depois. O manuscrito regista a atribuição do grau de Comendador da Ordem da Liberdade em 1985 e uma homenagem da Secção Regional do Norte dos arquitetos, no Dia Mundial da Arquitetura, em 1990. Em 1989 voltou a apresentar-se ao eleitorado, candidato à Câmara do Porto pelo PRD de Ramalho Eanes. Foi derrotado por Fernando Gomes. Aos setenta e seis anos, continuava a participar na vida democrática.
09 · O fim junto ao mar
No fim da vida, Artur Andrade foi viver para Leça da Palmeira, para um prédio da Rua Hintze Ribeiro que ele próprio projetara. Fê-lo por gosto da praia. Há uma coerência silenciosa neste desfecho: o homem que desenhou espaços para a cidade acabou os dias numa casa desenhada pela sua mão, junto ao mar que escolheu.
Morreu no Porto a 9 de novembro de 2005, aos noventa e dois anos. Segundo a informação familiar, foi sepultado no Cemitério do Prado do Repouso.
Deixou duas filhas: Maria da Conceição, nascida em 1942, e Laura, nascida em 1947. Segundo o registo familiar, da primeira nasceram Ana Cristina Leite, Fatucha Leite, Luís Artur Leite e Filipa Leite; da segunda, Zé Artur Rodrigues, Laura Manuela Rodrigues e Ana Clara Rodrigues. Sete netos receberam essa memória. A família procurou reunir histórias que os documentos oficiais não guardavam. O manuscrito refere ainda a monografia Obra e Vida de Artur Andrade, de Pedro Soares da Silva, apresentada em 2008 à Universidade Fernando Pessoa e construída com entrevistas à família.
10 · O homem que ficou na memória
Foi arquiteto e foi militante. As suas obras eram lugares de encontro: um café, uma livraria, um cinema onde a cidade se reunia. A sua intervenção política partia da vontade de construir uma sociedade mais justa. A memória que a família conserva junta essas duas dimensões e acrescenta-lhes os gestos quotidianos do homem.
A biografia da Universidade do Porto recorda-o com estas palavras:
«Um homem livre, determinado e compreensivo.»
O Cinema Batalha continua na Praça da Batalha. Quem ali entra encontra uma parte do trabalho de Artur Andrade. A família guarda outras: as mãos que aprenderam na oficina, a persistência nos estudos, a coragem e a vida junto de quem o conheceu. É essa presença, conservada entre a cidade e a família, que este livro procura tornar visível.
Fontes de apoio: Memória U.Porto, Batalha Centro de Cinema e RTP Arquivos. A autoria fotográfica do retrato fornecido não foi indicada.
Voltar à página